-Naquela noite resolveu fazer algo diferente. Diferente de abrir sua porta e só encontrar o vazio. De escrever cartas na madrugada para ninguém lê-las. De ouvir a voz da secretária eletrônica e depois dormir. De saber que ela estava nos braços de outro alguém. Aquele era o momento. Levantou-se da cama, olhou-se no espelho, pensou por alguns instantes. Mas já era tarde, a decisão estava tomada. Vestiu seu blusão, seu jeans desbotado e um sapato qualquer. Havia presa, precisava sair, cumprir sua missão antes que mudasse de idéia. Antes de se entregar a rotina. Arrumou o cabelo, daquele jeito meio bagunçado e simplesmente foi. Fazia frio lá fora, algumas pessoas caminhavam pelas ruas, muitas talvez iguais a ele, sem direção. Não haviam carros, nem ao menos ônibus. Seguiu em frente, passou por algumas ruas, umas desertas, no máximo um casal de namorados. No seu caminho alguns bares abertos, pensou em parar, pedir uma tequila, talvez uma cachaça, esquentar a alma, preencher o vazio daquela casa onde os móveis foram roubados e só restou o abandono. Mas parar seria considerado fracasso. Depois de caminhar por algumas horas, os pés já cansados, a boca seca, avista de longe uma igreja. Ouve alguns sons, resolve se aproximar, chegando perto uma multidão de gente, pessoas de todas as cores, línguas e estilos. Ainda meio perdido olha para frente, no altar um grupo de garotos. Eles tocavam Jazz, era o Jazz dos anjos, que acariciava a alma e elevava a mente. Que aos poucos o fazia esquecer de seus dias densos como chumbo. E diluia o amargo das palavras presas em sua garganta. Acende um cigarro, o primeiro do dia. As pernas doem, afinal havia caminhado bastante, já não se tinha noção do tempo aquela hora. Resolve sentar por alguns instantes no meio-fio em frente a igreja e observar o céu. O mesmo que de longe o espremia aqui embaixo. Não queria estar ali, voltar já não dava mais. Pensou naquele instantente se suas cartas haviam sido respondidas, mas estava longe demais de casa para averiguar nos correios. O que seria dele após aquela noite, pensou. Era ganhar ou perder. Jogo de azar. Onde estaria seu amor, naquela rua ou em outras. Preferiu não pensar. Os calos ainda doíam. Será que quando o dia clareasse era o momento de tirar a venda e acabar com o jogo. Refletiu. No final sempre um sai ferido. É apenas uma bala, mas de tanto apertar o gatilho uma hora alguém morre. Na frente daquela igreja talvez Deus o olhasse. Decidiu esperar o dia clarear. Era dia de ser super-herói de si mesmo por mais que o sacrifício fosse sua própria vida.
Escrito com sangue.
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